Poema inspirado na obra “Morte e vida Severina” de João Cabral de Mello Neto, por Marco Aurélio – PJ Brasilandia.

Morte e vida periferia (auto de natal paulistano)

O pobre menino explica ao leitor quem é e a que vem.

¬___ Me chamam de neguinho,
Nem sei o verdadeiro de pia.
Como há muitos neguinhos,
que é vapor de escadaria,
deram então de me chamar
neguinho de Maria.
Como a muitos neguinhos,
com mães chamadas Maria
fiquei sendo o de Maria,
do finado seu Fonseca
que tinha uma canela fina e outra seca.
Mas isso ainda diz pouco,
há muitos na quebrada,
por causa de um traficante,
que se chamou Fonseca Grande
e que foi o mais antigo
comandante do meu quadrante.
Como então dizer quem fala
ora a vossas senhorias?
Vejamos: é o neguinho
da Maria do seu Fonseca,
lá da quebrada do quadrante,
com tiroteio a todo instante,
nos limites do horizonte.
Mas isso ainda diz pouco,
ao menos mais cinco havia
por conhecido neguinho,
filhos de tantas Marias,
mulheres de outros tantos seu Fonseca,
das canelas finas e secas,
vivendo na mesma dureza,
magreza e sonharia em que eu vivia.
Somos muitos neguinhos
iguais em tudo na vida:
na mesma costela aparente,
no mesmo ventre crescido,
sobre as mesmas pernas finas,
iguais também no sangue que se derrama
que possui pouca tinta
devido a tantas anemias.
E somos negunhos,
iguais em tudo na vida.
morremos de morte igual,
mesma morte por chacina,
que é a morte que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes do vinte,
de fome um pouco por dia.
Somos muitos neguinhos
iguais em tudo e na sina:
trabalhar na biqueira de pé no chão,
corre dos home, como ensina os irmão.
Tentar viver como ensinou mãe Maria,
E que melhor conheçam vossa senhoria.
Que na vossa presença
sonha que um dia,
teria um natal com alguma alegria.

Neguinho presencia o natal de seu José, mestre carpina.

¬¬¬ ¬___ Seu José, mestre carpina
que habita esse lamaçal,
sabe me dizer como será esse natal?
Sabe me dizer se será vermelho
Pelas luzes piscando,
Ou pelo sangue derramando?
___ Neguinho, de oficio vapor
jamais tive a sorte
de dizer que a morte
não fosse a cor
que nos amargô.
___ Mas seu José, mestre carpina
não falam de um tal menino
que esta pra nascer,
menino homem, que nos permitiria viver.
___ Neguinho, de oficio vapor,
esse menino de que falas
já esta pra nascer,
mas por ser pobre
não vos deixaram viver.
___ Seu José, mestre carpina
esse menino por causo é seu filho
que em breve nascerá,
que trará alguma alegria,
ao menos ao teu lar?
___ Neguinho, de oficio vapor,
Esse menino é um tal Jesus,
Diferente no ser divino
Igual na ser franzino.
Dizem que nasceu há muito tempo
e o retratam branco.
sorte dele…
por ser neguinho como tu e eu,
não iria cear,
talvez apenas beliscar
aquilo que sobrar.
___ Seu José, mestre carpina
então o que fazer,
passar o natal a míngua
esperando agente morrer?
¬¬¬___ Neguinho, de oficio vapor
trazer esperança pra cá
é coisa de sonhador.
Que Cristo, maior que já existiu
tome cuidado por ai
pra não morrer como o ultimo
com bala de fuzil,
que não por acaso,
sempre nos atraiu.
___ Seu José, mestre carpina
será que um dia isso vai mudar?
Ou será que teremos de esperar
os cemitérios lotar?
___ Neguinho, de oficio vapor
só acabará a dor
no dia em que entendermos
que a vida do outro
não nos cabe valor.
Trazer pra terra a paz
É realizar o sonho do maior sonhador.

(Poema inspirado na obra “Morte e vida Severina” de João Cabral de Mello Neto).
Marco Aurélio
PJ Brasilandia.
16/12/12

Posts Relacionados